
Tudo sobre Branding e Posicionamento de Marcas
Uma marca não existe apenas no que pode ser visto
Ao longo da leitura, veremos por que uma marca vai muito além da identidade visual, como ela é construída por meio da percepção e por que compreender esse conceito é o primeiro passo para entender branding, posicionamento e todos os demais pilares da construção de marcas.
Existem empresas em todos os lugares. Marcas, nem tanto.
Todos os dias, novas empresas nascem. Algumas começam em uma garagem, outras em uma pequena sala comercial e muitas até dentro de casa. Elas escolhem um nome, registram um CNPJ, desenvolvem um produto, criam um logotipo e começam a vender.
À primeira vista, todas parecem seguir o mesmo caminho. Afinal, toda empresa existe para oferecer alguma solução ao mercado. Algumas fabricam produtos, outras prestam serviços, mas todas, de alguma forma, procuram atender uma necessidade de alguém.
No entanto, basta observar o mercado por alguns minutos para perceber que nem todas ocupam o mesmo lugar na vida das pessoas.
Existem empresas das quais compramos quando precisamos. E existem empresas que procuramos porque queremos comprar delas.
A diferença parece sutil, mas muda completamente a relação entre consumidores e negócios.
Pense em uma cafeteria. Se você quiser tomar um café, provavelmente encontrará várias opções pelo caminho. Agora pense no Starbucks. Quantas pessoas atravessam a cidade, esperam em uma fila ou pagam mais caro simplesmente porque querem viver aquela experiência?
O mesmo acontece em inúmeros mercados. Existem dezenas de fabricantes de celulares, centenas de montadoras e milhares de marcas de roupas. Ainda assim, algumas conseguem despertar algo que vai muito além da utilidade de seus produtos.
E é justamente aqui que nasce uma pergunta que vale a pena responder:
O que faz algumas empresas venderem produtos, enquanto outras conseguem construir algo que as pessoas lembram, recomendam e, muitas vezes, fazem questão de defender?
Talvez a resposta esteja em uma palavra que usamos todos os dias, mas raramente paramos para definir com profundidade: marca.
Toda marca é uma empresa. Mas nem toda empresa se torna uma marca.
Depois da reflexão anterior, talvez seja mais fácil perceber que empresa e marca não são a mesma coisa.
Os dois conceitos estão profundamente ligados, mas representam coisas diferentes.
Uma empresa é uma organização. Ela possui pessoas, processos, produtos, serviços, estrutura e um modelo de negócio. Em outras palavras, é o meio pelo qual uma solução chega ao mercado.
Uma marca, por outro lado, não pode ser encontrada em um organograma, em um contrato social ou em uma planilha financeira. Ela existe em um lugar muito menos tangível: na mente das pessoas.
Isso significa que duas empresas podem vender exatamente o mesmo produto, pelo mesmo preço e com uma qualidade muito semelhante, mas ainda assim serem percebidas de maneiras completamente diferentes.
É justamente essa percepção que começa a separar empresas comuns de marcas memoráveis.
Mas aqui existe um detalhe importante.
Quando dizemos que uma marca existe na mente das pessoas, não estamos dizendo que ela é apenas uma opinião ou uma impressão passageira. Se fosse assim, bastaria uma boa campanha publicitária para construir grandes marcas.
E nós sabemos que não é assim que funciona.
Uma marca é construída ao longo do tempo. Ela nasce da soma de experiências, expectativas, promessas cumpridas e da maneira como uma empresa escolhe se apresentar ao mundo. É um processo lento, quase imperceptível no dia a dia, mas extremamente poderoso quando observado ao longo dos anos.
Talvez seja por isso que algumas empresas sejam lembradas apenas pelo que vendem, enquanto outras passam a ser lembradas pelo que representam.
E essa diferença muda tudo.
Porque, no momento em que uma empresa começa a representar alguma coisa para as pessoas, ela deixa de competir apenas por características funcionais. Ela passa a ocupar um espaço que nenhum concorrente consegue copiar com facilidade.
É exatamente nesse ponto que uma empresa começa a se transformar em uma marca.
Como uma empresa se transforma em uma marca?
Se uma marca não nasce no momento em que uma empresa é aberta, então em que momento essa transformação acontece?
A resposta não está em um único acontecimento. Ela também não depende de uma campanha publicitária bem executada ou de um logotipo memorável. Na verdade, ela acontece de forma muito mais silenciosa.
Toda marca percorre uma jornada.
Essa jornada começa com um produto ou um serviço. Afinal, toda empresa existe para resolver um problema, atender uma necessidade ou facilitar a vida de alguém. Até aqui, estamos falando apenas da dimensão funcional do negócio.
Quando esse produto passa a ser oferecido de forma organizada, nasce uma empresa. Ela cria processos, contrata pessoas, desenvolve uma cultura, estabelece padrões de atendimento e define uma forma de entregar valor ao mercado.
Mas ainda não existe uma marca.
A transformação começa quando alguém vive uma experiência com essa empresa.
Essa experiência dificilmente será neutra. Ela desperta sensações, confirma ou quebra expectativas, gera confiança ou desconfiança. Em outras palavras, ela faz com que as pessoas formem uma percepção.
E percepções, quando se repetem ao longo do tempo, deixam de ser apenas opiniões isoladas. Elas começam a construir um significado.
É nesse momento que algo muda: a empresa deixa de ser conhecida apenas pelo que faz e passa a ser reconhecida pelo que representa.
Talvez esse seja o ponto de virada mais importante de todo este artigo.
Porque marcas não são construídas quando uma empresa simplesmente vende bem. Elas começam a ser construídas quando as pessoas passam a associá-las a uma ideia, um valor, uma promessa ou uma forma específica de enxergar o mundo.
É por isso que podemos resumir essa jornada de maneira bastante simples:
Primeiro existe um produto ou serviço.
Depois nasce uma empresa.
As pessoas vivem experiências com essa empresa.
Essas experiências constroem percepções.
As percepções, quando consistentes, criam um significado.
E é justamente desse significado que nasce uma marca.
Perceba que, em nenhum momento dessa jornada, a marca foi criada por decreto. Ela não surgiu porque alguém decidiu chamá-la assim. Ela foi sendo construída pouco a pouco, como consequência daquilo que a empresa entregou de maneira consistente ao longo do tempo.
Talvez seja justamente por isso que grandes marcas levam anos para serem construídas.
O significado não pode ser imposto. Ele precisa ser conquistado.
Por que algumas empresas são lembradas e outras apenas utilizadas?
Existe uma diferença curiosa entre as empresas que simplesmente fazem parte do mercado e aquelas que acabam fazendo parte da vida das pessoas.
Pense em quantas empresas você conheceu ao longo dos últimos anos. Certamente foram dezenas, talvez centenas. Algumas venderam um bom produto, prestaram um bom atendimento e cumpriram exatamente aquilo que prometeram. Ainda assim, pouco tempo depois, você praticamente esqueceu que elas existiam.
Agora pense em uma marca pela qual você realmente sente admiração.
Não estou falando, necessariamente, de uma marca famosa. Pode ser aquele restaurante da sua cidade ao qual você faz questão de voltar, uma pequena livraria que sempre o recebe pelo nome ou até uma oficina mecânica na qual você confia a ponto de indicar para amigos e familiares sem pensar duas vezes.
O que essas empresas têm em comum?
Curiosamente, a resposta dificilmente será o produto que vendem.
É claro que ele precisa ser bom. Um produto ruim dificilmente sustenta qualquer negócio no longo prazo. Mas a lembrança que permanece quase nunca está relacionada apenas às características técnicas daquilo que foi comprado.
O que permanece é a experiência que aquela empresa proporcionou, a confiança que conseguiu construir, a forma como resolveu um problema, a atenção aos detalhes ou a sensação de que, ali, você foi tratado de um jeito diferente.
Em outras palavras, o que permanece é o significado que aquela empresa foi construindo ao longo do tempo.
Talvez seja justamente por isso que marcas fortes raramente são lembradas apenas pelo que vendem. Elas são lembradas pela maneira como fazem as pessoas se sentir.
Quando pensamos na Ferrari, dificilmente pensamos apenas em um automóvel. Quando pensamos na Apple, dificilmente pensamos apenas em um celular ou um computador. E quando alguém fala da Harley-Davidson, a conversa dificilmente gira em torno da ficha técnica de uma motocicleta.
Em todos esses casos, existe algo maior do que o produto. Existe um conjunto de ideias, valores e sensações que foi sendo construído de forma consistente durante anos. É isso que faz com que essas empresas permaneçam na memória das pessoas mesmo quando elas não estão comprando absolutamente nada.
Talvez essa seja a maior diferença entre uma empresa comum e uma marca forte.
Uma vende produtos. A outra constrói significado.
E, quando uma empresa consegue construir significado, ela deixa de ocupar apenas um espaço no mercado para ocupar também um espaço na vida das pessoas.
Se marca não é um logotipo, então o que ela é?
Existe uma situação bastante comum quando uma empresa termina um projeto de identidade visual.
Depois de semanas discutindo conceitos, escolhendo cores, refinando tipografias e aprovando aplicações, o empresário olha para o resultado e diz, satisfeito: “Minha marca ficou pronta.”
É uma frase compreensível. Afinal, durante muito tempo fomos acostumados a usar a palavra “marca” para nos referirmos ao logotipo. Não por acaso, ainda é comum ouvir perguntas como: “Quem fez sua marca?” ou “Quanto custa uma marca?”
O problema não está exatamente na linguagem. Está naquilo que ela nos faz acreditar.
Se uma marca realmente ficasse pronta no momento em que um logotipo é aprovado, o que aconteceria nos anos seguintes? O que explicaria a confiança construída com os clientes, as recomendações espontâneas, a reputação conquistada no mercado ou o espaço que aquela empresa passou a ocupar na vida das pessoas?
Nenhuma dessas coisas nasce em um software de design. Todas elas são construídas muito depois de a identidade visual ser apresentada ao mundo.
É por isso que gosto de pensar na identidade visual como a fachada de uma casa.
A fachada é importante. Ela cria a primeira impressão, comunica um estilo e ajuda as pessoas a reconhecerem aquele lugar. Mas ninguém diria que uma casa se resume à sua fachada. Existe uma estrutura inteira por trás dela, composta por ambientes, histórias, pessoas e experiências que não podem ser vistas da calçada.
Com uma marca acontece exatamente a mesma coisa.
O logotipo, as cores, a tipografia e todos os demais elementos visuais são importantes porque ajudam a identificar e expressar uma marca. No entanto, nenhum deles é capaz de defini-la por completo.
Talvez a maior prova disso seja que algumas empresas mudam completamente sua identidade visual sem deixar de ser quem sempre foram. Outras, por sua vez, mantêm o mesmo logotipo durante décadas e, ainda assim, deixam de representar aquilo que um dia representaram.
Isso acontece porque a marca nunca esteve apenas na identidade visual. Ela sempre esteve no significado.
E, quando compreendemos essa diferença, percebemos que uma identidade visual não cria uma marca. Ela dá forma a algo que já existe ou ajuda a expressar aquilo que a empresa deseja construir ao longo do tempo.
É justamente por isso que, depois de toda a reflexão feita até aqui, talvez possamos chegar a uma definição muito mais sólida do que aquela que costuma aparecer nos livros ou nos dicionários.
Uma marca não é um símbolo, nem um nome e nem um logotipo:
O erro não é investir em identidade visual. É começar por ela.
Depois de ler tudo isso, talvez uma dúvida tenha surgido na sua cabeça.
“Minha empresa já existe há dez anos. Quer dizer que eu fiz tudo errado até aqui?”
A resposta é não.
Na verdade, o simples fato de sua empresa ainda existir já diz muita coisa sobre ela. Empresas não permanecem abertas por tantos anos apenas por sorte. Existe trabalho, dedicação, capacidade de adaptação e, quase sempre, muito esforço envolvido nessa trajetória.
Talvez o que tenha faltado não tenha sido competência, mas organização.
Muitas empresas começam exatamente como precisam começar: resolvendo um problema, conquistando os primeiros clientes e aprendendo no caminho. Elas crescem porque têm um bom produto, prestam um bom serviço ou constroem relações de confiança com as pessoas. Não existe nada de errado nisso.
O que acontece é que, em algum momento da jornada, o crescimento começa a exigir mais do que dedicação. Ele passa a exigir clareza, e é justamente nesse ponto que o branding faz sentido.
Existe uma analogia que gosto de fazer.
Quando alguém decide construir uma casa, existe uma ordem natural para as coisas. Antes da pintura, vem a alvenaria. Antes do acabamento, vem a estrutura. Antes mesmo de pensar na fachada, é preciso saber que tipo de casa será construída.
Isso não significa que a fachada não seja importante. Muito pelo contrário. Ela é parte da identidade daquela casa e influencia a forma como as pessoas a enxergam. Mas sua função é expressar uma estrutura que já existe, e não substituí-la.
Com as marcas acontece exatamente a mesma coisa.
A identidade visual é uma das partes mais importantes da construção de uma marca, mas ela não é o seu ponto de partida. Ela é a expressão visível de decisões que vieram antes: quem a empresa é, o que promete entregar, para quem existe e qual espaço deseja ocupar na mente das pessoas.
O ideal, sem dúvida, é que essas perguntas sejam respondidas antes de qualquer projeto de identidade visual. Quando isso acontece, a marca nasce mais coerente e cada decisão passa a fazer muito mais sentido.
Mas a vida real raramente acontece dessa maneira.
A maioria das empresas não começa com um plano estratégico de branding. Ela começa com coragem. Começa porque alguém decidiu empreender, precisou emitir a primeira nota fiscal, vender o primeiro produto, pagar as primeiras contas e descobrir, na prática, como manter um negócio vivo.
E não há absolutamente nenhum demérito nisso, aliás, isso é lindo!
O branding não existe para dizer que toda essa história foi construída da maneira errada. Existe para ajudar a organizá-la.
Ele olha para tudo o que a empresa viveu até aqui, identifica aquilo que realmente a tornou única e transforma essa trajetória em uma direção mais clara para o futuro.
Talvez seja justamente por isso que nunca seja tarde para trabalhar uma marca.
Algumas empresas fazem esse exercício antes mesmo de abrir as portas. Outras, depois de cinco, dez ou vinte anos de mercado. Em ambos os casos, o objetivo continua sendo o mesmo: construir uma empresa que não seja lembrada apenas pelo que vende, mas pelo significado que representa.
No fim das contas, branding não é sobre recomeçar.
É sobre compreender melhor a história que você já escreveu para decidir, com mais consciência, como deseja escrever os próximos capítulos.
Uma marca nunca está pronta. E isso é uma boa notícia.
Talvez, depois de ler este artigo, você nunca mais diga que sua marca ficou pronta.
Não porque ela esteja incompleta, mas porque marcas não são objetos. Elas são construções vivas.
Elas amadurecem à medida que a empresa amadurece. Ganham novos significados conforme novas pessoas passam a conhecê-las. São fortalecidas pelas promessas cumpridas e enfraquecidas pelas promessas esquecidas.
É justamente isso que torna o branding (a gestão de marcas) tão fascinante.
Ele não é o trabalho de um dia, de um designer ou de uma campanha. É um compromisso contínuo entre aquilo que a empresa acredita, aquilo que entrega e aquilo que as pessoas passam a perceber nela.
Talvez seja por isso que algumas empresas atravessem décadas sendo lembradas, enquanto outras desaparecem sem deixar qualquer lembrança.
No fim das contas, construir uma marca nunca foi sobre criar um símbolo.
Sempre foi sobre construir significado.
Continue aprendendo Fundamentos do Branding

